Memória nas ruas cariocas

Memória nas ruas cariocas

Publicado em 30/07/2012 no Jornal O Dia

O Rio de Janeiro sempre teve pouco cuidado histórico ao preservar tradições de sua própria memória. Não à toa somos tão diferentes de Europa no seu geral, que cuida com rigor de manter gabaritos em quase todas suas grandes cidades, a começar, é claro, por Paris, exemplo máximo de sedimentação de belezas.

Fato que sempre me indignou no Rio foi a sem cerimônia com que se quebram gabaritos, ou se destroem prédios históricos na orla que faceia nossas praias. Outro espanto meu foi a falta de identidade nas placas das ruas, identificando os nomes dos que são homenageados. Ainda bem que, de uns tempos para cá, esse tipo de orfandade a que foram desterrados os titulares dos nomes foi corrigido, ao menos em parte. Embora com duvidosa precisão em muitas delas, como foi (e parece que ainda é) o caso da Rua Roquette Pinto na Urca, onde ficou pespegada a incorreção óbvia: “Fundador da Rádio Roquette Pinto.”

Isso tudo vem aqui à baila porque dia desses, em visita à viúva do pintor Glauco Rodrigues, deparei-me nem com o nome, mas com a assinatura famosa do grande artista brasileiro, encimando a entrada o edifício, cujo condomínio trocou a banalidade de um reles nome (tipo Estrela do Mar) pela marca registrada do pintor em seu frontispício. Ora, esse tipo de procedimento é de uma delicadeza sem par para com a memória das ruas e das casas cariocas habitadas por vultos históricos. De resto, quero logo advertir aos apressadinhos de plantão que sou rigorosamente contrário às mudanças de nomes de rua, especialmente quando em homenagem a figuras históricas. Razão, aliás, por que tanto me bati contra o apeamento de Vieira Souto de sua Avenida para ali instalar-se o nome (queridíssimo por mim, embora) de Tom Jobim. Trata-se de uma questão de princípio e de sedimentação: nomes não podem ser trocados, sobretudo em logradouros públicos. Como agora, por exemplo, quer-se apear o de João Havelange do Engenhão. Belo atalho foi o encontrado pelo edifício onde morou o grandíssimo pintor Glauco Rodrigues, até hoje, de mais a mais, ainda não reverenciado por alguma escola nova que venha a ser inaugurada no Rio.

Ricardo Cravo Albin
Presidente do Instituto Cravo Albin