Exercício  de  Carioquice

Exercício de Carioquice

Publicado em 01/02/2019 no Jornal O Dia

Millor   Fernandes    certa vez  me    soprou    uma  de   suas   frases   lapidares  “   o   pior não   é o papel  em  branco frente     à    maquina de  escrever  .   Pior  mesmo  é a   superposição do  branco do  papel com o   branco da cabeça  . ,   cujas    ideias  são  sem   cor   alguma   . Ou  seja  ,   o  branco   vira  preto   que  vira  coisa   nenhuma “. Hoje   ,    o  meu possível   branco está  coloridissimo  .  Pensava em  escrever sobre  os   90 anos  de   Cândido  Mendes  ,  celebrados  pela  Academia  Carioca   dentro  da    reitoria da    Universidade   Candido Mendes  em  grande  estilo  ,   há  dias   . Tambem  pretendia  me  debruçar   sobre   as   dramáticas   denúncias  de    editores   lastimando  a   situação   dos    livros  no  Brasil      , logo  eles ,   nossa     afirmação   como   animais   pensantes  ,  Assuntos   quentes    , sim. Mas  que   ficam  adiados  pelo  aparecimento  de    um   Almanaque  ,  também     um   livro   ,  helàs  , um   afago  certeiro   à nossa   cidade  .     O ato de louvar-se o Rio em um originalíssimo (e raro) Almanaque não deixa de ser a possibilidade de uma convergência, o encanto sutil e imemorial de um amontoado de feitiços.

Certa vez, lá pelos anos 60, em domingo plúmbeo, foi almoçar   com   Vinicius  de Moraes   no barraco de Cartola ao sopé da Mangueira. Mergulhei em mesa farta, coroada com a mitológica carne assada da Zica, preparada com arte e apuro ao molho madeira.    Ao   final   da    amabilíssima    degustação ,  o  poeta   empertigou-se e  ,  quase    solene , proclamou    “estou na Mangueira, ouvindo Cartola, o poeta carioca, comendo a melhor iguaria do mundo, bebendo da pinga mais cheirosa, e recebendo a hospitalidade mais doce e sincera. É claro que esta chuva lá fora é puro sol. As estrelas vão brilhar, e vai raiar uma lua cheia daqui a pouco…”.

Vinicius de Moraes acabara de cunhar ali, na soleira do barracão de Cartola e Zica no Morro da Mangueira, à boca da noite, a definição mais eloqüente e inamovível da magia da cidade de São Sebastião.

Este almanaque, tramado pela coragem de Luiz Cesar Faro, desvela o espírito do Rio, acimentado pela matéria-prima mais vigorosa, os muitos de seus sortilégios. Que brotam torrenciais por todos os poros dos cariocas que amam a cidade. Sim, porque os há de mentira, incapazes de conviver com a essência exalada pela miscigenação, pela mulatice, pela malemolência dos muitos bairros e dos muitos esconderijos sensuais, que a recuperam dos malfeitos e da inadmissível violência.

Este livro, sim, um Livro-Almanaque,      se acode das miudezas e dos detalhes aparentemente banais, mas singularíssimos para o acolhimento exato do que é a entidade chamada “Espírito Carioca”.    Nosso     Almanaque,   de  que  o   Instituto  Cultural  Cravo Albin   tanto  se   orgulha    já    na    segunda  edição   de   fim de   ano  , será     capaz de   alimentar   a  frase imortal  do  Barão  de Itararé ,     nos   anos     20  do  século  passado    –   “ ora ,  ora   ,  se   existem   bons   almanaques  , que  se  rasguem    os  jornais  , que  se  descartem  alguns  livros    inócuos   .   Só   um    Almanaque   feito   com   apuros     desvela   segredos   e  agiliza  a   felicidade    da  leitura   “.    Sábio  , o  nosso     Itararé .  …  

Ricardo Cravo Albin

Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin