Ariano, o brasileiro

Ariano, o brasileiro

Publicado em 25/07/2014 no Jornal O Dia

Ariano-Suassuna

Ariano, o brasileiro

Ariano Suassuna não foi apenas o grandíssimo escritor e dramaturgo. Uma das mentes mais brilhantes que Pernambuco nos deu, Ariano era o pensador do Brasil, e
um ser humano superior em todos os níveis.

Conheci-o há muitas décadas, quando gravou comigo o depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som, em 1968. Desde então passei a beber-lhe toda a obra e a colecionar suas opiniões e batalhas de guerrilheiro cultural. Pude observar, ao longo de tempo tão espichado, que Ariano nunca mudou de opinião, preservando sempre uma comovedora fidelidade a tudo que sua conduta pessoal e artística argamassou e consolidou.

Acode-me a lembrança de seu depoimento para o MIS, quando insistiu na essencialidade da música popular e do cordel para bem temperar a alma popular. Aliás, logo depois ele se envolveria com a música armorial do Recife, misturando o erudito com o popular.

Em conversa posterior que mantivemos numa Feira Literária dos anos 80, Ariano explicitou a paixão nutrida pelos dobrados militares e pelas Bandas Filarmônicas. A que ele logo agregava a rabeca e os pífaros, cuja agudeza da sonoridade o encantava em particular.

Há poucos anos, tive a honra de apresentá-lo numa aula-espetáculo realizada no Palácio do Itamaraty, ao ar livre, à frente do Lago dos Cisnes. Ao evento, realizado pelo Emb.Moscardo, Presidente da Fundação Alexandre de Gusmão, assistiram quase 500 pessoas. Chamei-o então de olhos e ouvidos do Brasil Profundo. De pronto, ele bradou de sua mesa – “e também da boca, porque digo tudo o que muitos não querem ouvir”.

Ariano, arrebatador naquela tarde, fez a pequena multidão rir e quase chorar, como ator intuitivo que sempre foi. E, mais uma vez, bateu forte no estrangeirismo que macula o português. Provocando uma enxurrada de aplausos quando afiançou – “prefiro mil vezes o nosso vixe ou o oxente que o good bye americano”.

Portanto, o Brasil perdeu um oráculo e um profeta, o defensor das origens essenciais de nossa gente.

Ricardo Cravo Albin
Presidente do
Instituto Cultural Cravo Albin