A Rainha do Baião

A Rainha do Baião

Publicado em 07/11/2012 no Jornal O Dia

A cantora Carmélia Alves – que acaba de nos deixar às vésperas de completar 90 anos – foi a mais famosa intérprete dos ritmos nordestinos a partir dos anos 50. Carmélia ganhou o título de Rainha do Baião do próprio Luiz Gonzaga, cujo centenário se comemora justamente agora. Por uma dessas extraordinárias coincidências do destino, Camélia morre no auge das celebrações do seu maior amigo e admirador, o fabuloso Gonzagão.

Mas onde terá nascido Carmélia, em Pernambuco ou no Ceará, já que levou os ritmos do Norte/Nordeste do país à tamanha conseqüência? Aqui mesmo no Rio, para ser preciso em Bangu, onde ouvia os repentistas de cordel na casa dos pais, em plena década de 30. A menina espevitada do subúrbio logo se faria cantora, entrando para o rádio pela porta mais democrática, os programas de calouros da Rádio Nacional. Num abrir e fechar de olhos foi escalada para cantar na boate do Copacabana Palace.

A partir daí, Carmélia passou a ser considerada uma cantora com C maiúsculo no esfuziante meio radiofônico e noturno do Rio. Ela criaria delícias como “Trepa no coqueiro” (Ari Kerner, 1950), “Sabiá na gaiola” (Hervê Cordovil, 1950) e “Cabeça inchada” (Hervê Cordovil, 1951), que fizeram furor no Brasil. E a coroaram com o cobiçadíssimo título de Rainha do Baião, que era o gênero musical mais veiculado nos anos 50. Que, aliás, só declinaria quando a bossa nova explodiu, ao comecinho dos anos 60.

Em 2001, escrevi e dirigi, a pedido de Carmélia, o espetáculo “Cantoras do Rádio – Estão voltando as flores”, que acabou por se converter num grato sucesso de público e crítica, sendo encenado em quase todo o país. A tal ponto o show – que tinha em cena Ellen de Lima, Carminha Mascarenhas, Violeta Cavalcanti, além dela mesma – foi um êxito, que acabou se transformando em filme longa metragem. E mais uma vez, as eternas cantoras do rádio foram homenageadas pelas telas brasileiras. Passando seus últimos dias no Retiro dos Artistas, Carmélia Alves deixa agora um rastro de luz, de beleza, de dignidade. E de representação eloqüente de uma era que anda esquecida: a Era do Rádio.