Uma lágrima pela Guanabara

Uma lágrima pela Guanabara

01/09/2017

Por conta de uma dissertação muita comentada, que fiz em uma tenda do aterro durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em 1992, fui procurado por um grupo de ecologistas franco-britânicos para falar sobre as desditas da Baía de Guanabara, paixão e indignação que nutro por décadas à fio.

Disse-lhes, a contragosto, que a situação pouco mudou de 1992 para cá, embora com alguns esforços esboçados há pouco para satisfazer a compromissos firmados pelo Estado, por conta dos Jogos Olímpicos. Os aterros feitos na baía não apenas destroem a dignidade do espelho d’água, não. Eles vão além, provocando o desequilíbrio do ecossistema pelo assoreamento de suas profundidades, muito variáveis, mas sempre sensíveis. O historiador Gastão Cruls (in Aparência do Rio de Janeiro) escreveu em 1949, vejam bem, 1949, as seguintes considerações: “A baía míngua incessantemente e Everardo Backeuser calcula o aterro gradativo da Guanabara em pouco mais de duas braças a cada 50 anos. Observe-se que as faixas de terreno são criminosa e continuamente conquistadas ao mar, aqui e ali, mas principalmente na ponta do Calabouço, pelo desmonte do Castelo em 1922. Isso não só tem prejudicado muito a beleza de nossa formosa baía, mas também o entulho (esgoto e matéria sólida) que não pouco deve vir concorrendo para aquela inexorável dessecação. O que leva alguns pessimistas a já falarem num possível estrangulamento da Guanabara, a ser transformada em lagoa, como antigas angras se transformaram nas atuais lagoas Rodrigo de Freitas, de Maricá e Saquarema. É fora de dúvida que pontos hoje comprovadamente rasos, como as imediações de Paquetá e do Galeão, não dariam calado aos grandes barcos que em outros tempos se construíram nos estaleiros ali existentes. A abertura da Avenida Beira-Mar (Glória e Flamengo) fez que desaparecesse a tarja de areia branca que se estendia sem descontinuidade desde Santa Luzia até Botafogo.”

Esse relato de Gastão Cruls, feito em 1949, é de fazer soluçar a quem o lê hoje, setenta anos depois. Os aterramentos feitos em toda a baía nessas trágicas nove décadas foram simplesmente cinco vezes maiores que os promovidos nos últimos 450 anos. E, não bastassem os aterros feitos em ambos os lados da Guanabara, a baía vem sendo geometricamente assoreada pela altíssima carga de poluição diária despejada pelos rios, afluentes e manilhas de esgotos em todo seu entorno, esgoto in natura, muitas vezes acompanhados por pneus, cadeiras e até sofás.

Este entorno formoso, saudado por poetas e pintores universais como Manet, continua agredido não apenas pelo município do Rio. Mas, oh! horror, por mais sete outros  que circundam seu espelho d’água. Incapazes de ao menos derramar uma lágrima, uma única sequer, em socorro à nossa Guaná Bará. Assim os Tamoios a chamavam, por conta de suas “Águas = Guaná, Limpas  = Bará”.

 

Ricardo Cravo Albin

Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin