Piñon e Montenegro

Piñon e Montenegro

16/03/2017

São muitos os caminhos desta vida, proclama o nosso Vinícius, possivelmente em dúvidas sobre as muitas namoradas com que lhe brotoejava a vida. Do mesmo sentimento padecem os cronistas quando se acumulam os assuntos a serem escolhidos para ocupar a folha em branco. Embora saibamos, todos os que vivemos dos teclados, do mais corriqueiro dos males, a falta de matéria, o batucar do pandeiro e não sair som algum, como um filme mudo em preto e branco.

O amontoado de comentários e opiniões do pós-carnaval carioca sempre reluziu. Ao menos para mim, adestrado que sou às delícias dos folguedos, da multidão em palpitações, da possível felicidade em dias tão estreitos, mas intensos nas provocações, na ruptura do convencional, do atrevido e do contrário, como observa Roberto DaMatta com assiduidade quase apostolar.

Há tanto a comentar sobre o desfile das Escolas (paixão que alimento com assiduidade, nem sei por quê, por cinquenta anos), ou sobre a erupção dos blocos, pipocando como cascatas em cada rua (ou quase) da cidade, e embriagando jovens e nem tão jovens assim, multidões de nativos e de turistas de toda parte. Todos alimentados por um sentimento comum, a busca do prazer e, se possível, da sensualidade, ao menos da liberdade.

Mas isso já passou. E fica gravado na memória afetiva, como sempre acontece comigo. O hoje, e me refiro ao literal, ou seja, nesta segunda-feira, celebra-se também a beleza, embora apascentada e sem baterias percussivas. Antes, ao contrário, porque se ouvirão duas vozes, apenas a sutileza das almas e do engenho solitário da arte de duas mulheres, duas artistas, dois orgulhos da cidadania nestes tempos tão ultrajados. Refiro-me à escritora Nélida Piñon e à atriz Fernanda Montenegro, ambas antecipando o Dia Internacional da Mulher, a ser comemorado depois de amanhã, quarta-feira – guardem a data, a reconfirmar valores de essência.

Elas não falarão em praça pública, nem em auditórios monumentais. Ao invés do carro-alegórico metafórico, o espaço a lhes ser destinado hoje à tarde é o salão austero, embora acolhedor e discreto da Academia Carioca de Letras.

E por que? Pelo fato de a Academia dos que nascem nesta cidade de São Sebastião inaugurar seu ano acadêmico, dedicado, em 2017, às escritoras, à literatura produzida pelas mulheres do Brasil. E Fernanda, convidada a perfilar os 80 anos de Nélida, somou-se (o que lhe é habitual) ao melhor, ao verdadeiro. Razão por que a maior das atrizes desfiará o afeto pessoal e profissional pela amiga, impondo-lhe a Comenda da Ordem do Patrono do Brasil, Padre José de Anchieta. Ou seja, ambas se plasmam na essência do bem e do belo. Portanto, duas grandes mulheres finalmente abrem o ano, que começa nesta segunda. Como sempre… somente depois do carnaval.

 

Ricardo Cravo Albin

Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin