Paquetá sem sedução

Paquetá sem sedução

Publicado em 28/06/2016 no Jornal O Dia

Sempre me apraz andar pelo Rio, reconhecendo suas veredas, redescobrindo seus pontos culminantes. Alguém já observou, e com razão, que o carioca não conhece a cidade, deixando suas belezas e seduções para os turistas.

Eu, sempre que posso, faço a vilegiatura habitual deles, mergulhando na Floresta da Tijuca em direção ao Cristo Redentor, ou adentrando no bondinho para o Pão-de-Açúcar, ou ainda me espremendo na Cantareira em direção à Paquetá. Aliás, quero logo, e melancolicamente, considerar que a jóia do fundo da Baía anda um tanto fora de moda, até porque esses três itens eram obrigatórios para qualquer visitante do Rio até os anos 80.

Agora, quando se fala de pontos cariocas de essência, os dois primeiros são de imediato selecionados. E serão procuradíssimos pelos milhares de turistas que chegarão para a Olimpíada. Mas repararam que nossa ilha não mais está na rota?

Acabo de voltar de Paquetá, onde encontrei algumas das razões desse desterro turístico. Claro que a ilha continua bela, ostentando – o melhor de tudo – suas ruas despidas do horror que é o automóvel. Ou seja, a originalidade de não ouvir o barulho de buzinas e motores, além de não sermos atropelados. Esta idéia salvou Paquetá, preservando-se até pouco tempo as charretes e os taxis de triciclo de bicicleta (para duas pessoas). Em relação as charretes, elas foram desterradas, ainda muito recentemente, por conta de um certo zum zum zum em relação aos maus tratos dos cavalos, objeto, com alguma dose de razão, do acolhimento piedoso de sociedades protetoras de animais. Há que se distinguir o joio do trigo. É claro que sempre houve proprietários de charretes não apenas cruéis no trato dos seus cavalos, mas simplesmente criminosos. Contudo, cavalos puxando charretes existem em todos os lugares turísticos mais sedutores. Para não ir mais longe, como no Central Park em Nova Iorque, aqui mesmo, em Petrópolis, este tipo de transporte compõe o espírito da cidade do Imperador. Voltando às mazelas que me espantaram na eterna ilha da “Moreninha” (clássico romance de Macedo), a segunda grande reclamação é a indigência da Cantareira, barcaça velhíssima, com banheiros imundos, entupida de vendedores ambulantes e de muito mais gente do que deveria transportar. Outros problemas são a surpreendente aparição de favelas em suas colinas verdes e a poluição de suas praias, o que torna o banho um altíssimo risco.

Paquetá, reduto desde sempre de poetas e músicos, carece de um choque de gestão. Só assim poderia voltar ao roteiro nacional e internacional dos turistas. Que anseiam, cada vez mais, por lugares de beleza e de charme.

 

24 de junho de 2016

Ricardo Cravo Albin

Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin