Desculpem,  mas  eu    grito!

Desculpem, mas eu grito!

25/10/2017

– Mas você bate sempre na mesma tecla, sua ladainha da memória é um samba de uma nota só. Precisa tanto?

– É isso mesmo, mas esta nota só não sou eu. A nota só, e desgraçadamente, é a falta de pudor com a preservação da memória.  Entra ano, sai ano, a gente vê se perderem coisas, e nomes, e referências…

Este diálogo quase absurdo ocorreu quando dava uma aula-magna na USP. E é claro que não me constrangeu um minuto sequer. Ao contrário, exultei com a pergunta do aluno de jornalismo, de aparência afoita e rebelde. Desfiei, de imediato, regalado e suspiroso, todo um novelo sombrio do que comprovei ao longo da direção no Museu da Imagem e do Som, em seu então mais tenro início de consolidação, a partir de 1965. Quanto mais os depoimentos para a posteridade exumavam memórias e feitos, mais pessoas me procuravam para denunciar nomes esquecidos, destruições, ou mal tratos à coleções por parte de herdeiros desrespeitosos, ou até infames. Muitos velhinhos batiam à porta do Museu para doar livros, discos, fotos, filmes, clamando uma súplica devastadora: “vai me doer o coração ver tudo que juntei por tantos anos ir para o lixo, quando eu me for.” Os gemidos, as queixas, o desamparo, a certeza da destruição, eram definidoras do nenhum cuidado com a memória. Tanto por parte do poder público quanto – o muitíssimo pior – a partir de herdeiros malsãos. Esta trágica comprovação nunca se sustou – acreditem – em um único ano de minha espichada vida pública de mais de cinco décadas. E não falo de bens materiais tão somente. Flagelam minha alma os esquecimentos de memórias imateriais: fatos históricos, culturais, ou pessoas que ajudaram a construir o país. Que puderam fazer todos nós mais felizes e orgulhos por algumas gerações. Este o caso dos artistas. Em especial os que afinaram a arte da música. Isso para citar apenas – até temerária e parcialmente – os nossos cantores, músicos e compositores. Este povo irradiador da beleza do som é vítima mais constante do esquecimento. Juro a vocês que a cada mês anoto os esquecidos. E, taciturno, vocifero baixinho, para mim mesmo, o quanto perde o país em decência ao jogar embaixo do tapete gente que sempre valeu e valerá a pena.

E para não dizer que não falei das flores: nestes   dias  próximos de   outubro   temos  a   obrigação de   celebrar     duas  datas    queridíssima    ,  os     80   anos     de   Roberto  Menescal  e  de   Joel   do  Bandolim .   Roberto   é  o  ícone  da    Bossa   Nova     ,   o  movimento  renovador   da    cultura   musical deste   país  .   Um  musico  que  desfruta   de   grande   fama     até  no   Japao   .   Joel  é   puro   fundamento  da   tradição   herdada   de   Nazareth, Jacob  do  Bandolim  ,    Pixinguinha  ,   Radames   Gnattali     .    Aceito   todas  as   sugestões    e   cobranças    que    vierem   para  melhor   celebrar-lhes     as    obras   , as  vidas   ,  as importâncias  ,  ou  seja   ,  tudo  o   que  este   país  desatento    deve   a    ambos  .

 

Ricardo Cravo Albin

Presidente do Instituto

Cultural Cravo Albin