Acervo do Canecão, agora no ICCA,  reúne áudios de apresentações e roteiros anotados.

Acervo do Canecão, agora no ICCA,  reúne áudios de apresentações e roteiros anotados.

26/02/2015

Arquivo da casa de shows mais tradicional do Rio, agora no Instituto Cravo Albin, traz pérolas e curiosidades

POR LEONARDO LICHOTE
RIO — Losia Borges do Nascimento; solteira; bailarina; 1,69m; 58kg; 19 anos; fez cinema; manequim 42; sapato 37. Ao lado de Roberto Carlos e Caetano Veloso, de Chico Buarque e Amália Rodrigues, a moça, personagem anônima, é parte da história do Canecão que emerge dos 22 baús do arquivo da casa de shows, recém-entregue aos cuidados do Instituto Cultural Cravo Albin. Fotos de momentos históricos do local, áudios de shows e programas dos espetáculos, roteiros anotados e registros de naturezas diversas – desde cardápios (nos quais se pode acompanhar a inflação pela variação do preço da coxinha) até cartazes anunciando atrações, passando por peças curiosas como a pasta “Ficha das mulatas – Réveillon 1977”, onde estão os dados de Losia que abrem esta reportagem.

Ou seja, sob um olhar aberto, as memórias de um outro Rio, um outro Brasil, uma outra música popular brasileira – todos eles, de algum modo, presentes ainda hoje de forma menos ou mais evidente. E, sob uma perspectiva específica, a história de uma das casas de show mais importantes do país – inaugurada em 1967 e de portas fechadas desde 2010.

A ideia de guardar os documentos que hoje se encontram no instituto foi de Maneco Valença, produtor da casa desde sua fundação e primo-irmão de seu proprietário. Um trabalho que começou já na década de 1960. Quando o Canecão foi fechado – a UFRJ, proprietária do imóvel, recuperou o direito sobre ele depois de uma batalha judicial de três décadas -, Maneco levou o acervo para um depósito em Botafogo. Agora, quando teve que tirar o material de lá, pensou em entregá-lo a Ricardo Cravo Albin.

– Tenho essa natureza de colecionar. Não sei muito bem por que comecei a guardar as coisas – conta Maneco. – Juntei muitas fotografias da época, e também roteiros como os do show de Chico Buarque com o MPB-4, Jacques Klein e a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Isaac Karabtchevsky. Também estão no arquivo os primeiros shows de Roberto Carlos no Canecão, como o “Emoções” (de 1981/1982) e aquele em que ele se vestia de palhaço (de 1978). Gravei alguns shows também (como “Brasileiro, profissão esperança”, histórico espetáculo com Paulo Gracindo e Clara Nunes, de 1974, e a apresentação de Tom Jobim em 1993, um ano antes de sua morte), mas muitas vezes esbarrei em artistas que não autorizavam a gravação.

Maneco destaca também o material da Banda do Canecão, atração de sucesso dos primeiros anos da casa – inaugurada como cervejaria, com pompa, numa festa também registrada no acervo.

– Eles chegaram a gravar 18 LPs – lembra Maneco. – Todos eles estão no acervo.

A Banda do Canecão, os bailes de carnaval da casa, o Baile da Pesada de Big Boy e Ademir Lemos, a consolidação da geração da MPB surgida nos festivais da década de 1960… Esses diferentes momentos estão, ainda de forma desorganizada, nas caixas. O projeto de Cravo Albin, criador do instituto que leva seu nome, é conseguir algum tipo de patrocínio para, num primeiro momento, catalogar o acervo e, depois, pensar em produtos a partir dele, como livros e exposições – a tempo do aniversário de 50 anos da fundação do Canecão, em 2017.

– Vamos solicitar à Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), nossa parceira há muito tempo, bolsas de estudos para arquivistas trabalharem sobre esse material – explica Cravo Albin. – Depois, precisamos de patrocinadores interessados em tornar possíveis nossos projetos com o acervo, um arquivo faiscante e poderoso, uma mina de ouro em termos históricos. É uma memória que interessa ao Brasil. Fui procurado por uma produtora(a Visorama) que prepara um documentário sobre o Canecão, o que mostra esse interesse.

Cláudio Reston, um dos sócios da Visorama, reafirma a importância da história da casa e de seu acervo.

– Nossa ideia é fazer um documentário sobre a história do Canecão e, mais do que isso, sobre a história da música brasileira pelos olhos do Canecão – explica Reston, que durante sua pesquisa para o filme teve acesso ao material depositado no Instituto Cravo Albin. – Pelo que vi, o acervo tem muita coisa interessante, sobretudo dos anos 1960 e 70. Achamos importante fazer esse filme porque daqui a um tempo, com a casa fechada, tudo isso pode cair no esquecimento, as pessoas não vão saber como esse espaço foi importante para o rock brasileiro, por exemplo, ou mesmo para o amadurecimento do show business nacional.

O verdadeiro volume do acervo só poderá ser percebido depois que ele for devidamente decupado – afinal, há ali muito material referente à administração da casa, como notas fiscais de fornecedores. Porém, há também pérolas facilmente identificáveis que saltam do arquivo à primeira vista.

Um exemplo é o roteiro de “Deus lhe pague” (dirigido por Bibi Ferreira, com música de Edu Lobo e Vinicius de Moraes) com anotações de Millôr Fernandes, que assina a adaptação da peça de Joracy Camargo. Para a encenação de 1976, contexto que envolvia uma ditadura militar vigente e vigilante, Millôr puxou uma linha no roteiro e acrescentou uma fala ao diálogo sobre esmola: “É um ato político como outro qualquer.

Você tem que entender a psicologia de quem dá. Quando eles dizem ‘quem dá aos pobres empresta a Deus’, confessam que não dão aos pobres, emprestam a Deus. Estão esperando os juros, Barata!”. Ou a gravação da entrevista de Elis Regina na qual ela diz que “a única saída pro show business no Rio é o Canecão” e, acompanhada de Roberto Menescal ao violão, canta “O barquinho” e “As curvas da estrada de Santos”.

Há registros presentes no acervo que tocam direta e ternamente na memória afetiva de várias gerações, como a pasta de “Os saltimbancos”, musical infantil de Chico Buarque, adaptado de obra de Luiz Enríquez e Sergio Bardotti. Estão lá fotos do elenco, o roteiro e bilhetes que um dia foram mera comunicação burocrática entre os diferentes setores da produção, mas que hoje dão graça ao passado: “Boneco da galinha: consertar o cabelo”.

Os tradicionais bailes de carnaval da casa estão documentados em fotos, cardápios e no repertório da banda durante a festa – como em 1978, com a infalível sequência inicial de “Cidade maravilhosa”, “Quem não chora não mama (Antiga ‘Bola Preta)”, e “Mulata bossa nova”. Um carnaval de salão, segundo Cravo Albin, “menos careta” do que o de hoje.

– Pelas fotos, vemos muitas mulheres nuas. E era um carnaval de gala, o baile mais importante do Rio – nota o pesquisador. – Desde seu início, o Canecão assumiu a tradição do grande baile do Teatro Municipal, que vinha desde a primeira metade do século XX.

A percepção do Canecão como um lugar pertencente ao passado do Rio pode ser alterada nos próximos meses. Essa é a intenção da UFRJ, que planeja lançar em março um edital para a ocupação da área onde funcionava a casa – um plano que inclui a reabertura do local, agora rebatizado como Espaço UFRJ.

– Será um equipamento público voltado para a difusão da arte e da cultura, em particular da música popular – adianta o professor Carlos Vainer, coordenador do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e responsável pelo projeto de recuperação da casa. – Em virtude de uma ocupação ilegal, o local se transformou numa referência da música popular brasileira, um patrimônio cultural da cidade. A universidade entende que deve respeitar isso e que tem a obrigação de devolver esse espaço à cidade. Ele não será voltado exclusivamente para a música, mas será prioritariamente dela e das artes cênicas.

Veja esta matéria do O Globo na íntegra aqui!