É o Rio? É Musical, É Popular, É Brasileiro

Ruy Castropor Ruy Castro
ESCRITOR E JORNALISTA

Há quem chegue à idade adulta colecionando selos, tampinhas ou caixas de fósforos, esperando um dia completar a coleção. Estes são felizes, porque dispõem de catálogos para orientá-los ou porque, por incrível que pareça, o universo dessas coleções é comparativamente limitado. Mas vá se meter a colecionar capas de discos (de qualquer formato) que tenham o Rio como motivo.

Você morrerá de velhice e nunca chegará ao fim. E olhe que estamos falando de um universo também limitado – porque, pelo menos, se sabe quando começou. As primeiras capas brasileiras com imagens foram as dos velhos álbuns de 78 rpm, por volta de 1950. Em 1951, começaram a sair os LPs brasileiros de vinil, em dez polegadas. Em 1958 o Brasil aderiu ao formato perfeito, o do LP de doze polegadas, que todo mundo conhece. E, de 1986 em diante, tivemos o CD, que, pelos primeiros dez anos, ainda coexistiu com o LP. Mas quantos títulos foram lançados nesses cinqüenta anos ou mais? Até hoje, ninguém contou.

Só se sabe que o Rio ilustrou (tornou ilustre) uma infinidade de capas desses discos, em todos os formatos. Alguns dos primeiros álbuns de 78s, por exemplo, já tinham capas bem cariocas: eram os dois de Aracy de Almeida cantando Noel, desenhadas por Di Cavalcanti, e o de Mario Reis cantando Sinhô, por Rodolfo, na Continental, em 1951, e o de Francisco Alves, na Odeon, em 1952. O primeiríssimo LP brasileiro de dez polegadas, Carnaval em long-playing , lançado em 1951 pela Sinter em selo Capitol, também já trazia uma capa “do Rio”, desenhada por Paulo Brèves. E, quando o vinil de doze polegadas se tornou a regra, as capas cariocas – para discos de modinhas, lundus, valsas, dobrados, serestas, choros, marchas, sambas, bossa nova – podem ter sido, literalmente, milhares. É infernal: só eu possuo mais de quatrocentas – e não tenho a mínima de quantas faltam.

O que é uma capa “do Rio”? As mais comuns (e deslumbrantes) são as que mostram uma paisagem da cidade, de dia ou de noite, com os queridos cartões-postais: a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Cristo, Copacabana, o Arpoador, a Lagoa, os Arcos. Pode ser também uma cena de rua, de morro ou de praia – cada bairro do Rio é o Brasil – e só aí são incontáveis as possibilidades. E pode ser ainda o interior de um botequim ou de uma gafieira, a fachada de uma boate ou de um hotel, a passagem de um bloco ou de uma escola de samba. Isto, no que se refere a fotos. Quando se trata de ilustrações, o céu é o limite: Carnaval, mulatas, malandros, o Flamengo, garotas de Ipanema e quantos ícones você pensar – de Debret e Rugendas a Lan e Cássio Loredano, não há um artista que não tenha desenhado o Rio, e este desenho não tenha sido usado para adornar uma capa de disco de música popular brasileira. Música esta cuja síntese – em todos os tempos – se fez no Rio.

Por que tantos discos de música brasileira têm o Rio na capa? Porque esta música foi feita, em boa parte, pelos cariocas Domingos Caldas Barbosa, Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros, Patápio Silva, Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Sinhô, Vicente Celestino, Francisco Alves, Orestes Barboza, Aracy Côrtes, Bide, Marçal, Almirante, Nássara, Lamartine Babo, Braguinha, Synval Silva, Sylvio Caldas, Mario Reis, Luiz Barbosa, Moreira da Silva, Noel Rosa, Aracy de Almeida, Marilia Batista, Linda e Dircinha Batista, Orlando Silva, Ciro Monteiro, Mario Lago, Roberto Martins, Haroldo Lobo, Custodio Mesquita, Jorge Veiga, Dick Farney, Abel Ferreira, Jacob do Bandolim, Elizeth Cardoso, Zé Kéti, Cartola, Nelson Cavaquinho, Luiz Antonio, Dolores Duran, Sylvinha Telles, Johnny Alf, Elza Soares, Luiz Bonfá, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Chico Buarque, Jorge Ben, Paulinho da Viola, Aldir Blanc, Ney Lopes, Martinho da Vila, João Nogueira, Beth Carvalho, muitos, muitos mais – cariocas do Rio, bem entendido.

E, em parte rigorosamente igual, pelos cariocas de Niterói (Ismael Silva), de Campos (Wilson Batista), de Macaé (Benedito Lacerda), de Varre-e-Sai (Baden Powell), da Bahia (Xisto Bahia, Hilário Jovino, Assis Valente, Dorival Caymmi – 90 anos de idade, 70 de Rio – a lista de cariocas da Bahia não teria fim), de São Paulo (Eduardo Souto, Carlos Galhardo, Vadico, Pedro Caetano, Vassourinha, Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Blecaute, Marlene, Tito Madi, Maysa), de Minas Gerais (Ary Barroso, Joubert de Carvalho, Ataulfo Alves, Alcyr Pires Vermelho, Geraldo Pereira, Lucio Alves, Clara Nunes), de Pernambuco (Fernando Lobo, Antonio Maria, Severino Araújo, Moacir Santos), do Espírito Santo (Roberto Menescal, Nara Leão), do Rio Grande do Sul (Radamés Gnatalli), do Acre (João Donato), do Pará (Billy Blanco e metade dos Cariocas originais), de Sergipe (Luperce Miranda), e até de Várzea da Ovelha, distrito de Marco de Canavezes, Cidade do Porto, Portugal (Carmen Miranda) – e todos quantos nasceram em qualquer parte, mas que vieram para o Rio, fundiram-se com a cidade e logo se tornaram tão cariocas quanto o ovo colorido ou o caldinho de feijão.

O Rio foi o palco privilegiado não só de uma mistura de raças, origens e costumes, mas da colossal fusão de tradições musicais – de dentro e de fora do Brasil – que resultou na música popular brasileira. Perdão, vizinhos, mas esta fusão só poderia ter-se dado aqui – o resto é regional. É por isso que a imagem do Rio na capa de um disco sintetiza tudo, explica tudo e combina com tudo. Mas o Rio não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz samba tão bem.