Trilhas Sonoras

por João Máximo
Escritor, jornalista e crítico musical

Ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos e em outros países onde a TV apareceu primeiro, é muito importante o papel representado no Brasil pelas trilhas sonoras de novelas televisivas. Quase se poderia escrever todo um livro sobre o tema (o texto que se segue, contando a história desse papel, já oferece valiosas pistas). Limito-me a explicar por quê, em outros países, a contribuição da TV à música foi menos importante que a nossa.

Nos Estados Unidos, por exemplo, raramente os grandes compositores de cinema escreveram para a tela pequena. E os novos, cujos primeiros passos foram dados na televisão, não encontraram uma linguagem própria, capaz de contribuir para o aprimoramento da música dos filmes em geral, de cinema ou de TV. No Brasil, sobretudo na época em que nossas redes desistiram de usar discos de Bernard Herrmann e outros monstros sagrados como música incidental das novelas, dando oportunidade para compositores brasileiros criarem música original, o quadro se inverteu: a TV tornou-se a escola do compositor de trilhas que o cinema – por sua produção pequena, irregular, descontínua, em especial na primeira metade dos anos 90 – negou-se a ser.

Refiro-me, é claro, à música incidental, a que cria climas, define personagens, é ouvida sob a fala dos atores ou mesmo em cenas sem diálogo. Não me refiro a canções. Porque a novela brasileira, nos últimos anos e cada vez mais, optou por um tipo de trilha sonora que, atrevo-me a dizer, foi inventado por ela mesma: as colchas de retalhos de canções não-originais destinadas a integrar o disco a ser lançado assim que o primeiro capítulo vai ao ar. Muito antes de a moda pegar lá fora, em filmes como Sem destino e Loucuras de verão , dois dos pioneiros americanos nessa febre hoje convertida em pandemia, nossas TVs já se valiam do expediente: aproveitavam o sucesso de determinada canção ou então promoviam o de outra, ainda não notada ou mesmo esquecida (hoje, no Brasil, artistas e gravadoras sonham com um disco seu na próxima novela, dispostos mesmo a oferecer vantagens em troca de tal “honraria”).

Em resumo, a importância das trilhas de novela está aí, para o bem ou para mal. Para o mal, roubando com os fonogramas sonhados o espaço que poderia ser ocupado por música original, escrita especialmente para a novela, como já aconteceu em outros tempos. E para o bem, oferecendo a compositores de talento como Alberto Rosenblit, Sérgio Saraceni, Aluísio Didier, Marcus Viana, chance para exercitar-se na arte de escrever música para filmes, pouco importa que, eventualmente, o resultado nem sempre fique à altura do talento do compositor.