O Legado de Seu Jacob

André Diniz
por André Diniz
Escritor e pesquisador

Vivendo sob os desígnios arbitrários dos anos de chumbo, os chorões da década de 1970 produziram uma simbiose com o público nunca vista desde do advento da comunicação de massa. Com inúmeros festivais pelo país, o choro virou pop star televisivo. Grupos floresceram, instrumentistas despontaram, compositores se afirmaram. Começavam então mudanças promissoras no cultivo do gênero.

Foi o tempo de nascimento de Raphael e Luciana Rabello, Maurício Carrilho, Henrique Cazes, dos grupos Amigos do Choro, A Fina Flor do Samba, Os Carioquinhas, Galo Preto, Rio Antigo, Anjos da Madrugada. Foi a época dos Clubes do Choro, da consagração de Paulinho da Viola com o LP “Memória-chorando” e da valorização dos pais do gênero: Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim. A década que perseguia a palavra cantada não conseguiu calar a brasileiríssima e libertária sonoridade do choro.

Essa moderna geração do boom realimentou a tradição chorística sob um novo prisma. Já não eram mais músicos virtuosos e intuitivos que dividiam seu tempo de artista com outros ofícios, sobretudo em cargos públicos. Eram músicos profissionais que passaram a viver só de música- como arranjadores, instrumentistas, compositores ou professores. A vitalidade musical desses “meninos e meninas” do final da década de 1970 encontrou nos anos 80 o momento de colocar em prática seus estudos, seus novos experimentos.

O marco dessas inovações está ligado ao surgimento da Camerata Carioca, grupo que tinha à frente o maestro Radamés Gnatalli e o bandolinista Joel Nascimento. Ao compor a suíte Retratos , Radamés aproximou o choro da música erudita, abrindo novos caminhos para o gênero. A abordagem camerística do grupo também deu margem ao melhor aproveitamento de cada instrumento, diferenciando-se dos regionais da época do rádio.

Quase todos as formações pós-camerata buscaram uma nova maneira de perpetuar o choro. Assim foi com a Orquestra de Cordas Brasileira, que, liderada pelo bandolinista Afonso Machado, tocava de Bach a clássicos do choro e tinha uma instrumentação de violas, contrabaixo, violões, bandolins e percussão. Outros grupos seguiram o mesmo caminho: Nó em Pingo D’Água, Rabo de Lagartixa, Água de Moringa, Abraçando Jacaré, Pagode Jazz Sardinha’s Club, Maogami, Trio Madeira Brasil, Arranca Toco, Grupo Sarau.

Um dado importante desse processo de transformação é que o choro passou a ser objeto de estudo sistemático e matéria ensinada em oficinas, conservatórios e universidades. Uma gama imensa de pesquisas acadêmicas possibilita hoje uma melhor compreensão do seu legado em nossa cultura. Já são algumas dezenas de livros publicados que vêm a somar-se ao primeiro trabalho sobre o gênero, O choro, do carteiro e chorão Alexandre Gonçalves Pinto, escrito em 1936.

A força cultural que o choro conquistou nos anos 90 foi conseqüência desse processo e resultou no surgimento da pioneira revista Roda de Choro , do selo Acari Records, exclusivo do gênero, do bem-sucedido site Agenda Choro e Samba, dos festivais que ainda continuam pelo país, com destaque para o Chorando Alto, realizado em São Paulo, e de exposições contando a sua história. Como que coroando a década, instituiu-se em 2000 o Dia Nacional do Choro, comemorado no dia 23 de abril, data de nascimento daquele que dizia que o choro é um gênero “sacudido e gostoso”, o eterno Pixinguinha.

E hoje, escrevendo este texto, ouvi Jacob do Bandolim me perguntando lá de cima: “e as rodas, como andam as rodas de choro por aí?”. Estão um pouco diferentes, “seu” Jacob, mas continuam se espalhando pelos bares e lares das principais cidades. Acho que o senhor gostaria de dar uma volta pela Lapa, no Rio de Janeiro, ou uma chegada no Clube do Choro, em Brasília, onde jovens e veteranos chorões exercitam o hábito da liberdade do improviso, da saudável competição entre os instrumentistas solistas e de acompanhamento. Foi assim que nasceu o gênero, no tempo do Callado, Quincas Laranjeiras, Anacleto, lembra? O repertório, se o senhor visse o repertório, não acreditaria, os meninos tocam de Nazareth a Djavan. É só ouvir o trabalho do arteiro Zé Paulo Becker para concluir que sua gravação de Chega de saudade deu bons frutos. O bom disso tudo é que o choro continua sendo um jeito de tocar, é tanto o ritmo quanto a forma. De mais a mais, “seu” Jacob, ainda tem o Instituto que leva seu nome, onde funciona a Escola Portátil de Música, projeto que reúne centenas de jovens no Rio de Janeiro e junta choro com cidadania. Pode ficar muito tranqüilo, “seu” Jacob, a sua insistência em estudar, pesquisar, compor e tocar é a cartilha da nova geração.