A Era dos Festivais

Zuza Homem de Mellopor Zuza Homem de Mello
Escritor, jornalista e produtor musical

Após a instauração do regime militar no Brasil em março de 1964, uma facção da sociedade brasileira se levantou contra o amordaçamento da democracia no país: a da juventude universitária.

De 1965 a 1972 essa classe estudantil exerceu uma pressão que assumiria proporções inéditas, concentrando-se numa arma jamais utilizada em confrontos semelhantes: canções, cuja “munição” estava nas letras dos compositores de festivais.

Esse período notável tornou-se conhecido como a Era dos Festivais e, coincidentemente, foi nesses sete anos que uma privilegiada geração de compositores e cantores surgiu de repente, de uma só vez, numa florada incomparável. Quase quarenta artistas até hoje em atividade e na proa da Música Popular Brasileira.

Ninguém imaginava que a vencedora do primeiro festival da TV Excelsior em 1965 iria mudar o rumo da música brasileira. O que mudou foi a forma como Elis Regina interpretou Arrastão, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo, com a mesma “desdobrada” já testada em seu sucesso Menino das laranjas . Qual o seu efeito, uma rallentanda , numa música de festival? Era o aplauso no meio da música, meio caminho andado para os jurados julgarem que podia ser a mais forte concorrente. Arrastão venceu carregada com garra pela cantora, destronando as adversárias da linha Bossa Nova.

A TV Record, líder dos programas musicais a partir de “O Fino da Bossa”, comandado por Elis Regina, realizou o festival mais importante do ano seguinte, 1966. As preferências se dividiam entre A banda , do jovem Chico Buarque, interpretada por Nara Leão, e Disparada , dos também jovens Geraldo Vandré e Théo de Barros com Jair Rodrigues e um trio instrumental de viola caipira, violão e a percussão de uma queixada de burro. Nos dez dias que antecederam a final o Brasil parecia viver uma Copa do Mundo, e após a declaração de um empate entre ambas, o país se deu conta da grandeza de sua música popular.

O festival da TV Record no ano seguinte reuniria o melhor grupo de canções de toda a Era dos Festivais. A batalha entre os defensores da “verdadeira música popular brasileira” contra o iê-iê-iê representando o “imperialismo americano” através dos arranjos para as músicas de Gil e Caetano, foi o cerne do Tropicalismo surgido nesse festival. Aplaudido ou vaiado intensamente, o resultado deu Caetano em quarto, Chico Buarque em terceiro, Gil em segundo e novamente em primeiro Edu Lobo, com o parceiro Capinam, numa impecável apresentação com Marília Medalha em Ponteio .

A partir daí as músicas de festival passaram a ter como bordão o protesto contra a ditadura militar. Nasceu um profundo diálogo entre compositores de festival e a classe universitária.

No II Festival Internacional da Canção do Rio despontou Milton Nascimento, e no III, em 1968, enquanto São Paulo consagrava o Tropicalismo ditando uma nova estética, o III FIC do Rio deu o que falar: horas antes da final, Walter Clark, o diretor da TV Globo, recebe um telefonema de um general advertindo-o que a franca favorita, Caminhando , de Geraldo Vandré, não podia ganhar o festival por causa de seus versos considerados altamente subversivos. O júri, sem saber de nada, dá a vitória à Sabiá . A massa popular, num coro de vinte mil vozes, canta Caminhando , que ficara em segundo, e logo depois Sabiá é cantada sob uma vaia estrondosa que atinge em cheio o autor, Tom Jobim, no palco. A música de Vandré foi proibida de ser executada em rádios mas era cantada em cerimônias de protesto. Dois meses e meio depois foi decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5). O governo militar assume sua face mais dura e repressiva. Caetano e Gil são presos e se exilam em Londres, Vandré foge do país, Chico Buarque vai para a Itália, e a censura faz valer suas garras contra as letras de canções brasileiras. A Era dos Festivais entra em sua curva descendente.

Veio 1971, alguns dos compositores famosos de volta ao país tramaram um esquema para protestar abertamente contra a censura e, de certo modo, dinamitar o festival. Sob a liderança de Chico Buarque e Gutemberg Guarabyra, a trama surtiu efeito, e de uma hora para outra o VI FIC, que prometera novas canções dos maiores compositores, ficou sem canções. Com canções arranjadas à última hora o VI FIC foi um fiasco.

Haveria outro festival? Houve. Em 1972 o exército ordenou que a presidente do júri, Nara Leão, fosse substituída. O júri todo se demitiu, foram convocados novos jurados que sequer sabiam português. Um dos demitidos, Roberto Freire, ao tentar ler um manifesto, foi arrancado à força do palco diante da estupefação da platéia. O navio fazia água e iria a pique. Afundou de vez. Acabou-se a Era dos Festivais.

Anos depois dos festivais acabarem, a ditadura também acabou. Aqueles jovens compositores representam até hoje a linha de frente da Música Popular Brasileira.