Tento Apreender Suas Almas e Falar Como Elas

por Paulo César Pinheiro
Letrista e Compositor

Na segunda metade do século XIX, Chiquinha Gonzaga foi a pioneira. Filha de militar graduado, desfrutando de vida, que se chamaria hoje, de classe média alta, a mulata pianista saiu de casa e foi tocar na noite suas valsas, choros e canções. Atrevida e ousada, namorou homens mais jovens, compôs músicas de carnaval, fundou Sociedade Autoral, quebrando as barreiras preconceituosas do mundo extremamente machista de então.

De lá pra cá tudo mudou depois dela.

Sendo o piano, porém, um instrumento mais comum nos solares, sobradões palacianos, casas senhoris, e aprendê-lo, fazia parte, muitas vezes, das prendas domésticas, quantas mulheres jamais mostraram suas composições, enterradas na solidão dos salões sombrios e silenciosos de suas tristes e melancólicas mansões?

Ainda muito tempo depois de Chiquinha, pouquíssimas apareceram.

A partir da segunda metade do século XX as coisas começaram a se transformar. Surgiram Maysa e Dolores Duran, e isso só pra falar de mulheres que se destacaram nacionalmente no cenário artís­tico popular de nosso país. Excelentes compositoras e cantoras que eram, tornaram-se internacionais. Daí em diante o homem teve que se curvar ao talento indiscutível de mulheres que, corajosamente, desa­fiavam costumes, hábitos, tradições e conservadorismos vigentes do patriarcado. Houve a revolução feminina. Os violões, então, saíram dos quartos das donzelas e ganharam os palcos e os estúdios de gravação. As escolas de samba tiveram que admitir, em suas alas de compositores, gente como Dona Ivone Lara, por exemplo. A violeira Helena Meirelles varou o sertão goiano e mato-grossense tocando na zona do meretrício, em birosca, tendinha e cabaré. As nordestinas Anastácia, Clemilda e Cecéu se espalharam em seus xotes, baiões e xaxados, com suas letras picantes de duplo sentido. Me lembro de Joyce, minha parceira, num Festival da Canção, no Maracanãzinho, levando uma vaia geral e sonora por cantar seu samba que começava com os versos: “Já me disseram que meu homem foi embora…”. Essa expressão – meu homem – dita por uma jovem bonita da zona sul carioca, incomodou os ouvidos reprimidos daquele tempo, como derrubada de tabu.

Hoje, início do século XXI, há um equilíbrio bastante distinto nessa balança musical. Um considerável número de compositoras com obras importantes, de beleza inigualável, já imortaliza­das no nosso cancioneiro. Eu tenho a felicidade de ter diversas delas como parceiras: minha querida Sueli Costa, minha mulher Lucia­na Rabello, a pernambucana Laís Bezerra, Joyce, de quem já falei, Dona Ivone também, a nissei Lisa Ono, Carlota Marques, a pioneira Chiquinha, parceira post-mortem, Celinha Vaz, Ângela Suarez.

E, convenhamos, compor com essas maravilhosas mulheres é deleite, é delicia, é prazer. Tento aprender suas almas e falar como elas.

Me perdoem, pois, os meus parceiros, e não me levem a mal nem se ofendam, mas homem, aqui pra nós e que ninguém nos ouça, é bicho muito chato.