A saga de um clube que deu certo

por José Domingos Raffaelli
JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL

Sempre li e ouvi dizerem que o Brasil é um país sem memória. Efetivamente, com raríssimas exceções, esquecemos rapidamente nossos feitos, nossos heróis, nossos artistas e nosso passado para pensar unicamente sobre hoje, agora ou o que acontecerá amanhã. Essa mentalidade deformada e maléfica predomina com tal freqüência que a maioria considera normal deixar cair no esquecimento e, quantas vezes, no ostracismo, acontecimentos relevantes da história nacional, organismos, vultos, personalidades e pessoas comuns que marcaram suas trajetórias com o propósito de lutar por um ideal.

Felizmente existem honrosas exceções. Uma é esta criteriosa reconstituição da trajetória do lendário Clube de Jazz e Bossa, elaborada por pesquisadores e estudiosos através de um levantamento completo, em autêntico trabalho de garimpagem, da história e das realizações dessa instituição fundada por abnegados entusiastas cujo objetivo era divulgar, estimular e ampliar o gosto pelo jazz e pela bossa nova, despojados de qualquer interesse pessoal ou financeiro.

Embora jamais alguém haja se pronunciado a respeito, pessoalmente considero que o Clube de Jazz e Bossa – de tantas recordações entre os que vivenciaram sua breve, mas profícua, atividade -, mesmo inconscientemente, foi uma contestação ao movimento então nascente da Jovem Guarda influenciada pelo rock. Nosso clube foi uma ilha de resistência para preservar o jazz e a bossa nova, até então os gêneros musicais favoritos absolutos das juventudes brasileira e americana.

Muito mais que simples relato, este documento é definitivo, pesquisado e elaborado em seus mínimos detalhes com critério, inteligência e entusiasmo, abordando os ideais e a atividade do Clube de Jazz e Bossa. Ao receber a honrosa incumbência de redigir estas linhas, antes li três vezes o documento com grande interesse e intensa emoção, revivendo aqueles tempos gloriosos que tive a felicidade de viver e compartilhar com meus companheiros de jornada.

Como remanescente do Clube de Jazz e Bossa, relembrei o convívio sadio e desinteressado de todos os seus fundadores e sócios honorários. Sua trajetória foi de apenas dois anos, mas deixou marcas profundas na eternidade de nossas lembranças e nossos corações. Lembro da tarde inaugural na boate K-Samba, quando ouvi Victor Assis Brasil pela primeira vez e levei o saudoso saxofonista-barítono Les Rout para tocar. Integrado ao espírito que irmanava todos sob a égide de uma efervescente jam session , Les tocava sem parar, reiterando que jamais presenciara um clima tão festivo. A maioria dos companheiros já não está entre nós. É a lei imutável da existência, mas a saudade imorredoura dos que se foram é expressa implicitamente neste precioso documento. Desejaria citá-los nominalmente, mas a leitura das páginas seguintes oferecerá maiores detalhes e uma narrativa infinitamente superior à minha limitada capacidade de coordenar minhas parcas idéias e observações.