Gil, Olavo, São João

Gil, Olavo, São João

Neste país sem memória – ou quase – as festas populares e o folclore são jogados despudoradamente embaixo do tapete. É sabido o quanto o Brasil perde de referências culturais.  Claro que os tempos vertiginosos da globalização e da impunidade agora endêmica  conduzem, e muito, a esse estado de deterioração da alma brasileira.

Tudo isso  para considerar sobre um fato – que seria apenas social – se não sinalizasse um generoso resgate de tradições. Há dias, o Ministro  Gilberto Gil cumpriu 65 anos.

E celebrou a data no solar senhorial dos Monteiro de Carvalho em Santa Teresa. Mas não com festa black-tie, não com discoteca bate-estaca. Olavo Monteiro de Carvalho, juntamente com os irmãos, teve o topete de organizar uma monumental festa caipira à caráter. Ou seja, agregou à cativante música tradicional de São João – de que boa parte da burguesia tem aversão – comidas típicas como tapiocas, mugunzás e a bebidas referenciais, como o quentão. Mais: convidou quase mil pessoas para celebrar o “casamento” de Gil e Flora, com padre, igrejinha, delegado e tudo. E o milagre se fez: intelectuais, ministros de estado, governadores, jornalistas e artistas, muitos artistas, se surpreenderam uns aos outros devidamente fantasiados de matutos. Ouvindo músicas do âmago do país. Bebendo e comendo os frutos do povo do Brasil.

Acredito que a festa de Olavo para Gil, por sua monumentalidade, representa  muito mais do que pode imaginar nossa vã consciência.

Entendo – e quem lá esteve poderá confirmar – que a bela folia dos Monteiro de Carvalho significa não apenas um abraço nas tradições de um Brasil verdadeiro e quase desprezado pelas grandes urbes e pelo top da sociedade.

A festa sinaliza que os festejos juninos poderão receber, a partir de agora, solidariedade mais abrangente por parte da mídia e dos que fazem opinião. Assim seja…

Ricardo Cravo Albin
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