CAETANO – Em análise literária de A.C. Secchin

CAETANO – Em análise literária de A.C. Secchin

09/05/2018

Uma novidade preciosa

CAETANO – Em análise literária de A.C. Secchin

 

Leia a íntegra da palestra do Acadêmico Antonio Carlos Secchin proferida na Academia Brasileira de Letras, dentro do ciclo “cidades”.

O professor Secchin, poeta, letrista e imortal, é também considerado refinado analista das esquinas literárias da MPB e de seus grandes compositores.

Aqui então dois estudos inseridos no ciclo da ABL “Cidades” em que são abordadas por Secchin as letras de Caetano Veloso para as cidades de São Paulo (“Sampa”) e Londres (“London, London”). A ultima, “London, London”, é belamente traduzida do inglês (sua versão original) pelo poeta e acadêmico Antonio Cícero.

 

Londres Londres

Vagando sem destino por aí

Por Londres Londres linda vou sozinho

Atravesso as ruas sem temer

Todo o mundo abre-me o caminho

Ninguém há que eu conheça e cumprimente

Só sei que todos abrem-me o caminho

Estou sozinho em Londres sem temer

Vagando sem destino por aí

Enquanto meus olhos

Procuram discos voadores lá no céu

Ah, domingo e segunda, outono passam por mim

E gente apressada mas tranquila

Pessoas se dirigem a um guarda

Que aparentemente acha agradável agradar

Ao menos viver é bom e eu concordo

Ao menos ele aparentemente acha agradável

É tão bom viver em paz e

Domingo, segunda, anos e eu concordo

Enquanto meus olhos

Procuram discos voadores lá no céu

Não escolho olhar para rosto algum

Não escolho caminho algum

Apenas me acontece estar aqui

E é legal

Grama verde, olhos azuis, céu cinza, Deus abençoe

Dor silenciosa e felicidade

Eu vim para dizer sim, e digo   Mas meus olhos

Procuram discos voadores lá no céu.  (Disco Caetano Veloso, 1971)

 

SAMPA

1     Alguma coisa acontece no meu coração

que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João,

é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi

da dura poesia concreta de tuas esquinas,

da deselegância discreta de tuas meninas.

Ainda não havia para mim Rita Lee,

a tua mais completa tradução,

alguma coisa acontece no meu coração

que só quando cruza a Ipiranga  e a avenida São João.

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto,

chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto,

12   é que Narciso acha feio o que não é espelho,

e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho,

nada do que não era antes quando não somos mutantes.

E foste um difícil começo, afasto o que não conheço,

e quem vem de outro sonho feliz de cidade

aprende depressa a chamar-te de realidade,

porque és o avesso do avesso do avesso do avesso.

19     Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas,

da força da grana, que ergue e destrói coisas belas,

da feia fumaça que sobe apagando as estrelas,

eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços,

tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva.

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba,

[mas possível novo quilombo de Zumbi,

e os novos baianos passeiam na tua garoa,

26     e novos baianos te podem curtir numa boa.         (Disco Muito, 1978)