A Virada, um suspiro de esperanças.

A Virada, um suspiro de esperanças.

Publicado em 02/01/2018 no Jornal O Dia

Em meio às tempestades político-administrativas que atordoam o país neste fim do temibilíssimo 2017, tenho a petulância de agregar ao espírito carioca alguns mimos. Esta semana, entre o Natal e o Réveillon, o Rio deveria mesmo abrir-se em pétalas perfumadas, ao menos nesses dias de festas, flores e luzes.

Mas o que será o espírito carioca utilizado para soerguer a auto-estima do Rio, por vezes tão combalida e problemática?

Bem, o espírito carioca é aquele velho e irrefreável sentimento de descontração, de largueza de gestos, do celebrar-se a cidade que nos inspira a todos por sua beleza indestrutível – e não aquela que pode nos acabrunhar pela onda de violência, impunidade, desencontros.

Não, as amargas, agora não.

Nós, os cultores do Rio, sempre pretendemos uma cidade amável, fraterna e vista por um viés que anda adormecido pelas montanhas de problemas. Mas a velha urbe resiste. E sempre resistirá. Porque é o acúmulo de boas memórias, de sentimentos úteis, de gente que vale e valerá sempre a pena. De coisas, objetos, definições sociológicas que são só nossas. Cariocas. Carioquíssimas.

Como não entender como Carioquice esta gente fantástica que faz da música carioca a mais sedutora do mundo? Aí está um vértice – graças a Deus, miscigenado – que vai do gênio de Cartola na Mangueira ao não menos gênio de Tom Jobim em Ipanema. Ambos inundando o coração da cidade toda.

Como não absorver como Carioquice personagens como Sérgio Porto, ou Carlos Heitor Cony, ou Vinícius de Moraes,  ou   Nelson Pereira  dos  Santos  , ou Martinho da Vila, ou Lan?    E   Ruy  Castro  ,  meu  Deus?   Com seus textos, seus cantos e seus traços modelados pela cara do Rio. Aliás, os cronistas e os caricaturistas (impossível não abraçar daqui Aroeira, Chico ou Jaguar) sempre puseram de pé a alma do nosso povo, em sua quintessência de verdades.

Como não degustarmos como Carioquice a comida carioca, aureolada triunfalmente pela feijoada dos sábados? Ou a glória nacional que é a caipirinha? Ou outro suspiro de beleza que é a mulher carioca?

Como não vivermos em estado de Carioquice quando já roçamos o Réveillon? E os acúmulos do verão, da praia, do carnaval das Escolas de Samba, dos blocos de rua? Que já se desvendam aqui ou acolá. É, finalmente, a Virada, que instala novas idéias, novos dirigentes, novas esperanças.   No meio acadêmico, por exemplo, aonde gravito e de onde sugo prazeres estéticos ano após ano, as duas principais Casas de Letras, a monumental Brasileira de Letras e a menor, mas   bravissima  Carioca   de Letras, dois novos  Presidentes  já lá  estão  instalados.  E que presidentes.   Na de Machado de Assis, um gênio enciclopédico, libertário, surpreendente e voltado para o social, Marco Lucchesi. Na de Jose de Anchieta, um poeta clássico, um amigo amavel, um pesquisador de joias da Literatura, Claudio Murilo Leal.    Portanto, todo esse conjunto de eventos      exalta a      Carioquice – alias, acaba de     sair o     Almanaque Carioquice 2017, editado pelo Insight e Instituto Cravo Albin, com      mais de 200 paginas.  Em resumo, a diversidade e a sinuosidade do Rio estão todas agregadas por lá.  Vale conferir.

 

22  de  dezembro

Ricardo Cravo Albin 

Presidente do   Conselho  Empresarial  Assuntos  Culturais  da     Associaçao   Comercial  do  Rio